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Reflexões sobre princípios e cidadania e a cultura do cancelamento

Monark, Flow, "invasão" do IFood e os flanelinhas de minorias. IFood é rápido para atender "donos" de minorias, mas lento para responder clientes

Por

Madeleine Lacsko
 
 
Na cidadania digital, a economia é a da atenção. Uma das melhores formas de atrair atenção - e, portanto, poder econômico - é ser "flanelinha de minoria". Gostaria de ser autora da expressão, mas é gentilmente roubada do meu amigo Marcio Américo, humorista, escritor e roteirista.

O que acontece quando você deixa seu carro com o flanelinha no espaço público? Ele cuida e faz alarde de que aquela área é dele até precisar fazer esforço e correr risco pelo seu carro. Daí, você que se dane. A minoria está para o flanelinha assim como o carro.

Os mesmos flanelinhas de minorias que, ano passado, queriam crucificar o IFood de cabeça para baixo por causa da situação trabalhista dos empregadores hoje beatificam a empresa por cortar o patrocínio do podcast Flow. Mas melhorou a situação dos entregadores, por acaso? Eles nem sabem. As minorias que se danem, o negócio é ganhar like fingindo defender os fracos e oprimidos. Enquanto houver otário, malandro não morre de fome.

Recupero aqui todo imbroglio em que a empresa se meteu ao optar por abraçar funções que são das instituições políticas e da sociedade civil. O movimento, aparentemente, não levou em conta algumas funções que são de responsabilidade da empresa e ninguém ainda sabe se ela cumpriu ou não. Entrar em narrativas políticas que não têm a ver com o negócio é danoso para a empresa e para a democracia. Este caso é exemplar.

Lembra da tal história da estátua do Borba Gato queimada em São Paulo? Eu lembro bem porque foi uma das minhas grandes vitórias no jornalismo. Uma colega da Folha de São Paulo publicou no dia seguinte do meu artigo sobre o fato uma reportagem com o mesmo título e a mesma fonte. Claro que não copiou, foi coincidência. Acontece de ter exatamente o mesmo título todos os dias.

O líder do movimento ficou conhecido meses antes, como liderança de um protesto chamado "o breque dos apps". Entregadores pediam condições de trabalho mais sustentáveis e os apps pontuavam que a legislação atual não se encaixa em seu modelo de negócio. Eu fiz um artigo que foi chamado de fascista e comunista ao mesmo tempo apontando algo que ficou escancarado agora. O negócio dos apps, não é entrega, é captação e gestão de dados. O IFood dá conta disso ou não dá? A questão precisa ser respondida depois dessa confusão toda.

Quando a esquerda pleiteava CLT para entregadores, o marketing do IFood apoiou-se em uma parcela com tendências liberais que enxergava na situação uma espécie de empreendedorismo. Qualquer um poderia fazer entregas, ouvi diversas vezes. Aqui não importa o que eu penso, mas os fatos. Quem segurou a onda do IFood diante das passeatas principalmente no início da pandemia foram os conservadores e liberais mais aguerridos.

Não é à toa que o IFood resolveu patrocinar o Flow. Muita gente que defendeu o modelo de negócio em que não há relação trabalhista com empregadores é esse público. Ocorre que a nata das agências de publicidade é outro público, o dos flanelinhas de minorias. E não me entenda mal, depende muito da minoria. Vai alguém de alguma minoria pensar diferente da fina flor da elite publicitária. Vira lixo. E o IFood resolveu se meter a ouvir esse tipo de conselho.

É um direito da empresa ouvir quem quiser e patrocinar quem quiser. Mas é dever garantir a segurança dos dados pessoais das pessoas. E, pelo menos até agora, parece que houve muito mais preocupação com um escrutínio sobre aquilo que Monark pensa ou pode ter pensado do que com os dados de milhões de clientes. Cá entre nós, não estamos falando de qualquer ladrãozinho ou hacker com acesso a isso, mas de gente que faz piada com tiro na cabeça.

Tenho carinho pelos dois envolvidos na treta de Twitter. Monark perguntou se ter pensamentos racistas é crime. Augusto Arruda Botelho respondeu que não, mas é motivo de vergonha e de repensar. A lacração decidiu que era racismo. Como fica então a história do racismo estrutural? Não existe mais? Se existir, todo mundo tem pensamentos racistas enquanto está se "desconstruindo". Prende todo mundo então? Tira o emprego de geral? O IFood seguiu o conselho de adultos que pensam assim. Parabéns à diretoria e aos conselheiros. Boa ideia.

O IFood, que meses atrás era massacrado por explorar gente desesperada na pandemia, resolve publicar a seguinte nota oficial: "O propósito do iFood é alimentar o futuro do mundo promovendo mudanças e impactando positivamente a sociedade, por isso estamos encerrando a nossa relação comercial com o Flow. Acreditamos que não é mais possível ser parte de uma sociedade desigual, por isso repudiamos qualquer tipo de preconceito ou ato de discriminação. A empresa assumiu compromisso público de ser protagonista na promoção de mudanças urgentes que favoreçam a diversidade e a inclusão. O iFood segue firme nesse propósito e vai continuar promovendo ações (internas e externas), incentivando a mudança de comportamentos e se posicionando diante de situações que vão contra todo o propósito de diversidade e inclusão da companhia." (grifos meus).

Com toda sinceridade, se não foi o pessoal do Breque dos Apps ou a concorrência que escreveu isso, espero que seja um lapso temporal ou uma criança de menos de 10 anos. Qual o sentido de, para embarcar numa polêmica em que a empresa nem havia sido citada, entregar de bandeja para a opinião pública o calcanhar de Aquiles do IFood? A promoção de um ambiente de negócios insustentável, que deteriora a sociedade e depende de pessoas pedalando 50km por dia para sobreviver é uma acusação pesada feita contra o IFood. Essa nota traz todos esses gatilhos de volta. Quem fez mirou o próprio interesse lacrativo, não a empresa.

Ato contínuo, alguns restaurantes da plataforma em vários cantos do Brasil têm seus nomes mudados para slogans políticos pró-Bolsonaro e dizeres bem macabros, como o tal "Marielle Peneira". A lacração está felicíssima ao dizer que os malvados bolsonaristas seguidores de Monark são capazes de tudo mesmo. Já o IFood sabe que se enfiou num problemaço e tem muito a explicar sobre seu modelo de negócio, o cuidado com os dados e o excesso de terceirizações.

Num primeiro momento, dizia-se que o IFood foi hackeado. Eu não paguei para ver, tirei todos os meus dados de lá. Depois a própria empresa disse que não houve invasão, o sistema é seguro. "O incidente foi causado por meio da conta de um funcionário de uma empresa prestadora de serviço de atendimento que tinha permissão para ajustar informações cadastrais dos restaurantes na plataforma, e que o fez de forma indevida", disse o IFood.

Como a empresa resolveu? "O acesso da prestadora de serviço foi imediatamente interrompido, e os nomes dos restaurantes já estão sendo restabelecidos. É importante destacar que os meios de pagamento dos clientes estão seguros. Os dados de meios de pagamento não são armazenados nos bancos de dados do iFood, ficando gravados apenas nos dispositivos dos próprios usuários, não tendo havido comprometimento de dados de cartões de crédito. Também não há qualquer indício de vazamento da base de dados pessoais de clientes ou entregadores cadastrados na plataforma", informa a nota oficial.

Tirar o acesso de uma terceirizada resolve o problema? Não, assim como cancelar o patrocínio do Flow não resolve nada. Só faz a empresa parecer precipitada em suas decisões, ingênua ao escolher parceiros e descuidada com seus clientes ao reagir. Por que a invasão foi feita? Quem é essa pessoa? O que queria? Uma pessoa que faz piada com tiro na cabeça teve acesso a que dados exatamente? Por quanto tempo? Quantas terceirizadas o IFood tem? Como elas selecionam pessoal? As entranhas do descaso com o consumidor, da imaturidade empresarial e da priorização da lacração estão expostas.

Ah, mas o errado mesmo é o hacker sujo o suficiente para postar algo como "Marielle Peneira". Concordo 200%. Por isso não passei meus dados, endereço e horário que vou abrir o portão para esse anjo, passei para o IFood. Acreditei que levaria a sério o coração do seu business, nossos dados. Quantas terceirizadas têm acesso a geolocalização? Ao nosso histórico? Aos contatos dos restaurantes? Aos dados e rotas dos empregadores? Isso é dever da empresa, não é favor. Calar não é um direito, mas é o que foi feito.

O IFood diz que trabalha pela inclusão e contra o preconceito. Digamos que um desses grupos odiosos que se proliferam por aí tenha acesso a uma das sei lá quantas milhares de terceirizadas. Ou melhor, que tenha acesso a um único desajustado ou perverso de uma única das trocentas terceirizadas. E esse perverso consiga acesso a dados de negros, homossexuais, mulheres ou trans para repassar aos grupos odiosos. A melhor forma de lutar politicamente por proteger esses grupos seria protegendo.

Será que já aconteceu? Quantos seriam os dados vazados? Confesso que tirei todos os meus dados de lá. Dois colegas relataram que, de ontem para hoje, o banco bloqueou o cartão que tinham no IFood por tentativa de fraude. Pode ser coincidência e pode não ser. Vi diversos outros relatos semelhantes na internet e em sites que cobrem Bolsa de Valores. O fato é que a empresa teve mais interesse em comentar publicamente a opinião do apresentador do podcast Flow sobre pensamentos hipotéticos do que em esclarecer o que interessa a seus clientes e parceiros.

Sou a favor de cada um no seu quadrado. Empresa é feita para dar lucro, não para fazer política. Tem função social sim, dentro do próprio escopo de atuação. Deve ter poder econômico, jamais meter-se a tomar decisões institucionais, como punições previstas em legislação. Na era digital, temos grupos que ganham poder assim, exercendo justiçamento. Empresas são poderes institucionalizados. Se forem ouvir quem não entende de política e pratica a antipolítica, podem até lacrar, mas ganham o prêmio de "próxima vítima".
 
Madeleine Lacsko
Madeleine Lacsko é jornalista desde a década de 90. Foi Consultora Internacional do Unicef Angola, diretora de comunicação da Change.org, assessora no Supremo Tribunal Federal e do presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alesp. É ativista na defesa dos direitos da criança e da mulher.
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