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Por que no Brasil parte dos políticos nega a revolta em Cuba?

Casos de repressão violenta contra manifestantes foram registrados por cidadãos e jornalistas independentes, e condenados por diversas organizações e governos do mundo todo

O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) fez uma série de publicações em suas redes sociais sobre os recentes protestos em Cuba. As postagens do partido contêm informações inverídicas e distorções a respeito da situação, conforme verificado pela Gazeta do Povo.

"Há manifestações em todos os lugares do mundo", diz a nota, assinada por Luciana Santos, presidente nacional do PCdoB. "A mídia escolhe incensar algumas".
 
As manifestações ganharam atenções da mídia porque os atos vistos em Cuba no domingo passado, e em menor número no decorrer da semana, não têm precedentes na ilha, tanto em escala quanto na ousadia dos cidadãos que saíram às ruas para confrontar a repressão a que são submetidos em seis décadas de ditadura castrista.

Repressão violenta
 
No entanto, casos de repressão violenta contra manifestantes foram registrados por cidadãos e jornalistas independentes, e condenados por diversas organizações e governos.
 
O próprio regime cubano admitiu que um homem foi morto em confronto entre manifestantes e forças de segurança na segunda-feira, em um bairro da periferia de Havana, segundo informou a estatal Agência Cubana de Notícias. O homem de 36 anos participava de protestos contra a ditadura no município Arroyo Naranjo, quando várias pessoas foram detidas e outras sofreram ferimentos, inclusive policiais, segundo a agência.
 
A ONG Cubalex contabilizou até esta sexta-feira a detenção de 383 pessoas, 55 das quais já foram libertadas.
 
Jornalistas independentes que trabalham na cobertura dos protestos também têm sido alvo da repressão. Um fotógrafo da Associated Press foi ferido pela polícia em Havana, e um repórter fotográfico da mesma agência foi agredido por simpatizantes do regime.
 
A jornalista independente cubana Camila Acosta, que escreve para o jornal ABC Espanha, foi presa no domingo após publicar fotos e informações sobre as manifestações nas redes sociais. Acosta foi liberada da custódia policial sexta-feira, 16, mas foi colocada em prisão domiciliar.

Também a youtuber cubana Dina Stars foi presa por agentes da ditadura enquanto fazia uma entrevista por vídeo a um jornal espanhol, sobre os protestos, em sua casa na terça-feira.

A ONG Human Rights Watch afirmou nesta sexta-feira que conduziu dezenas de entrevistas com jornalistas, ativistas e vítimas em Cuba. A lista preliminar de detidos chega a quase 400 pessoas, disse José Miguel Vivanco, diretor-executivo para Américas da HRW. "O paradeiro de muitas delas é desconhecido", afirmou.

"Em muitos casos, o regime prendeu ativistas e jornalistas reconhecidos com o aparente propósito de impedir que participassem das manifestações ou que reportem sobre elas", denunciou Vivanco. "Vários foram detidos ao sair de suas casas ou quando caminhavam pela rua".

Até o momento, a ONG documentou a prisão arbitrária de sete jornalistas, três dos quais já foram libertados ou colocados em prisão domiciliar. Em outros casos as forças de segurança "detiveram de forma arbitrária pessoas que participavam pacificamente dos protestos, assim como transeuntes", relatou Vivanco, acrescentando que agentes foram buscar manifestantes em suas casas, "após supostamente terem sido reconhecidos por fotos e vídeos".
 
Na enorme maioria das detenções arbitrárias que documentamos, os detidos continuam incomunicáveis. Eles não têm permissão para ligar para a família ou advogados, nem receber visitas", denuncia o diretor da ONG.

A HRW relatou casos de familiares que não sabem o paradeiro de seus parentes e mães que estão procurando seus filhos em estações de polícia. A situação é agravada pela proibição de imprensa livre no país e o controle do acesso à internet em Cuba, que prejudicam a cobertura dos fatos e a organização dos manifestantes. A maioria das redes sociais e aplicativos de mensagens continua bloqueada no serviço de internet móvel de Cuba, dias após o início dos protestos.

"Sem uma pressão internacional combinada e inteligente que obrigue [o ditador Miguel] Díaz-Canel a acabar com os abusos e a censura, é provável que nunca saberemos totalmente a repressão que tem ocorrido nos dias de hoje", conclui Vivanco.

A Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, instou na sexta-feira, 16, que a ditadura cubana liberte as pessoas que foram presas arbitrariamente "por exercer o seu direito à liberdade de reunião pacífica ou à liberdade de opinião e expressão".

Por que os protestos ocorrem
 
Na realidade, os cubanos saíram às ruas motivados pela grave escassez de alimentos, medicamentos e cortes de eletricidade, e pedindo por "liberdade" - e não contra o embargo econômico dos EUA. Os manifestantes nas ruas gritavam slogans contra Díaz-Canel, como "abaixo a ditadura", e pediam por vacinas contra a Covid-19 e pelo fim dos altos preços de itens básicos.

Cuba já vinha sofrendo uma grave crise econômica desde 2019, influenciada também pela queda da produção de petróleo na Venezuela e o fim do “programa mais médicos” em vários países. Com a pandemia, o fechamento de fronteiras afetou drasticamente o setor de turismo na ilha, uma das principais fontes de divisas no país.

Um dos símbolos dos atuais protestos e do descontentamento em geral é a música "Patria y Vida", cujo título é um jogo de palavras com o slogan do regime comunista "pátria ou morte".

A canção que virou um fenômeno popular foi composta em colaboração entre artistas cubanos de hip hop que vivem em Miami (EUA) e rappers que vivem em Cuba. A sua letra acusa a ditadura de destruir a qualidade de vida em Cuba. "Chega de mentiras. Meu povo exige liberdade. Chega de doutrinas", diz a música.
 
 
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