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Crônica de uma pandemia

Por Marlene Vaz

Em março de 2021, completei 1 ano de isolamento social com rígido protocolo, sem sair, comprando tudo pela internet e nem mesmo os entes mais queridos entravam na minha casa. Como já havia tomado a 1ª dose da vacina, resolvi sair de carro aos domingos, para dar uma volta pela cidade. Saía sempre com duas máscaras hospitalar e face shield, além do spray de álcool 70º. Nesse tempo ainda não eram comercializadas máscaras potentes no comercio.

Certo domingo, resolvi sair apenas com duas máscaras, porque ouvi especialistas explicando na mídia que sozinha dentro do carro a pessoa não precisava de máscara. Pois bem, nesse dia quando retornava, passando por Ondina, em Salvador, pela pressão de outro motorista caí num buraco, e o pneu estourou. Tive que estacionar num lugar sem acostamento. Dois rapazes se aproximaram para ajudar, e dois carros da polícia pararam pedindo-me os documentos. Avisei que iria chamar o Seguro, mas o guarda disse que o carro estava ocupando uma pista e o seguro iria demorar, então ele teria que chamar o guincho, ou os dois rapazes poderiam trocar. Respondi que não tinha dinheiro, e os rapazes disseram que não se ofereceram pelo dinheiro.

O guarda mandou que eu saísse do carro. Quando fiz o movimento para sair, romperam de um lado os cordões das duas máscaras! Logo no dia que eu fui sem a face shield. Pensem num caos. Não existe um manual que ensine como se proceder num momento desses.

Os policiais gesticulando com veemência para os carros passarem, e os motoristas, como sempre, reduzindo a velocidade para ver qual foi a desgraça do dia. Aí eu disse aos guardas que Deus é maravilhoso porque eles chegaram na hora que estacionei. De pronto, responderam comentando sobre o poder do Senhor.

Saí do carro com uma mão comprimindo a máscara nos dois cordões que partiram. Uma multidão de pessoas simples na calçada, poucos usavam máscara, música altíssima vindo de uma caixa de som, e as pessoas vieram todas na minha direção. Um casal se ofereceu para comprar água, outro ofereceu café. O que eu quisesse, dizendo sempre: tenho dinheiro.

Veio uma senhorinha, sem máscara, pegou no meu braço dizendo: “Coitadinha, acontecer isso, estourou o pneu”.  Como é que eu poderia dizer aquela pessoa gentil que largasse meu braço?

Encostada no carro, porque não havia outro espaço, fui cercada, todos pertinho de mim. E a música alta rolando.

Imediatamente, atendendo ao TOC de socióloga, referendando-me na teoria sociológica pude ver a representação social da solidariedade das pessoas de baixa renda. Não importava o valor do carro, nem a roupa que eu vestia. Ali eu era apenas uma senhora passando por um infortúnio. Tanto que ao terminar a troca do pneu, um dos rapazes disse: “Senhora veja que estou colocando as ferramentas na mala do carro”. E era um estojo chique, fácil de vender no mercado. 

Solidariedade é o fator que garante a coesão social em um período específico. Este é fenômeno do divino social, não ajudar seria transgredir os ensinamentos de Deus. E o período específico foi aquele em que estive vulnerável, ou seja, saindo dali acabou a solidariedade, porque não pertencíamos à mesma comunidade.

Serviço concluído, a música continuava altíssima, então despedi-me agradecendo a todos. E as pessoas solidárias bateram palmas, o que chamou mais atenção, pois os carros paravam. E os policiais desesperados para fazerem o trânsito fluir.

Ao chegar em casa, como era orientado naquela época, tomei duas Ivermectina durante três dias. Hoje, sabemos que esse medicamento sobrecarrega o fígado. E passei uma semana orando, o que deu resultado, pois não fui contaminada pela covid-19 numa época de alta propagação.  

Gente, eu estive no Pancadão da Orla, não fui presa e ainda fui aplaudida. Este é o fenômeno chamado Bahia.  

Marlene Vaz é socióloga, pesquisadora, professora universitária e consultora de instituições internacionais com filiais no Brasil.

Fonte Modais em Foco

 

 

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